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miércoles, 18 de septiembre de 2019

Amando

Paulo Leminski

Amando,
aumenta
até duas mil vezes
o tamanho.

De Quarenta clics em curitiba, 1976.

lunes, 1 de mayo de 2017

Tudo outra vez

Belchior

Há tempo, muito tempo
que eu estou longe de casa
e nessas ilhas cheias de distância
o meu blusão de couro se estragou.

Ouvi dizer num papo da rapaziada
que aquele amigo que embarcou comigo
cheio de esperança e fé já se mandou.

Sentado à beira do caminho prá pedir carona
tenho falado à mulher companheira: 
quem sabe lá no trópico a vida esteja a mil.

E um cara que transava à noite no Danúbio Azul
me disse que faz sol na América do Sul
e nossas irmãs nos esperam no coração do Brasil.

Minha rede branca, meu cachorro ligeiro Sertão, 
olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro,
o fim do termo "saudade" como um charme brasileiro
de alguém sozinho a cismar.

Gente de minha rua como eu andei distante, 
quando eu desapareci ela arranjou um amante,
minha normalista linda, ainda sou estudante
da vida que eu quero dar.

Até parece que foi ontem minha mocidade
com diploma de sofrer de outra universidade,
minha fala nordestina, quero esquecer o francês.

E vou viver as coisas novas que também são boas,
o amor, humor das praças cheias de pessoas, 
agora eu quero tudo, tudo outra vez.



.............................

Incluida en el LP Era uma vez um homem e seu tempo (1979), esta canción marcó mi juventud a fines del siglo XX en Brasil, país que me acogió como segunda patria y al que pertenece un inmenso pedazo de mi corazón. Al escucharla hoy siento que sus líneas cobran nuevos significados. R.I.P. para este poeta inolvidable.

lunes, 10 de abril de 2017

Mierda y oro

Paulo Leminski

Mierda es veneno.
No obstante, no hay nada
que sea más bonito
que una buena cagada.
Cagan ricos, cagan pobres,
cagan reyes y cagan hadas.
Y no hay mierda que se compare
a la de la persona amada.

De Distraídos venceremos, 1987.

jueves, 30 de junio de 2016

Penélope (fragmento)


Ana Martin Marques 

i

Lo que el día teje,
la noche omite.
Lo que el día traza,
la noche rasga.
De día, tramas,
de noche, plagas.
De día, sedas,
de noche, mermas.
De día, mallas,
de noche, fallas.
II

La trama del día
en la urdimbre de la noche
o la trama de la noche
en la urdimbre del día
mientras tejo:
la fidelidad de un hilo.

III

De día dedales.
De noche nadie.

...........

De Once poetas brasileros, Bogotá, 2013.

domingo, 3 de enero de 2016

Prova

Olha, 
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.

............ 
 De Millôr Definitivo - A bíblia do caos, 1994.

Calendário

Millôr Fernandes

E tudo vai passar,
Como passaram César,
Brutus, Tito, Baltazar,
Todo grande homem,
Falso ou verdadeiro.
Mas isso só lá pro fim do ano.
Inda estamos em janeiro.

 ............ 
De Millôr Definitivo - A bíblia do caos, 1994.

lunes, 10 de agosto de 2015

Entre os mundos real e virtual

Frei Betto

Nosso mundo pós-moderno é fragmentado. Uma de suas expressões mais evidentes é o videoclipe. Enxurrada de flashes, vibrações acústicas, sons distorcidos. Rompe-se a linearidade, enquanto a simultaneidade embaralha passado, presente e futuro. Tudo é simuladamente aqui e agora.

O Iluminismo, ancorado na literatura, cede lugar à digitalização frenética. Mundo que carece de sentido. Forma que dispensa conteúdo. A performance do artista ultrapassa a arte que ele produz. Seu nome vale mais que seu desempenho. A valoração dá lugar à exaltação.

Einstein, que desnudou o mistério do Universo com suas equações, foi sucedido por Steve Jobs, que nos ofereceu maravilhas tecnológicas embaladas de refinamento estético, movidas a velocidade que desafia o cérebro humano.

Agora a alienação já não resulta de ideologias que distorcem a realidade para nos incutir a mentira como verdade. Basta que sejamos deslocados do real para o virtual. Somos seres que trafegam simultaneamente em dois mundos: o da realidade de nossas necessidades e o da virtualidade de nossos sonhos e desejos.

Trancados em nossos egos, avessos à sociabilidade, navegamos nas redes sociais que dispensam texto e contexto. Bastam vocábulos desconexos, abreviações, o balbuciar de sinais gráficos que nos conectam com a plateia global que, acomodada no teatro do mundo, desconectada do real, mantém os olhos fixos no palco vazio.

As grandes narrativas são deletadas por esse tempo desprovido de memória e utopia. O passado passou, o futuro é uma quimera... Só resta o presente que se sucede prisioneiro da circularidade infinita.

Ninguém ingressa em uma casa sem antes avisar ou ser convidado, marcar hora, identificar-se com o porteiro e justificar a espera e atenção.

No entanto, centenas de pessoas invadem, pelas redes sociais, o nosso espaço privado, ferem a nossa sensibilidade com ofensas e desaforos, desafiam os nossos valores, jogam-nos na vala comum das emoções cifradas. Tudo se assemelha a um jogo de pingue-pongue com rede, porém sem mesa.

Viciados em digitalização, aprisionados pela tecnologia que assegura retorno imediato ao capital, perdemos horas e horas da vida atirados ao ringue onomatopaico. Não navegamos, naufragamos. Deixamo-nos aprisionar pelas redes que nos favorecem a evasão de privacidade.

Ora, ninguém precisa mais se preocupar em invadir a nossa privacidade. Nós mesmos nos expomos em rede global, arrancamos máscaras e roupas, escancaramos nossa indigência cultural e nossa miséria espiritual.

Como artefato tecnológico, somos também apenas uma forma. Um objeto jogado aleatoriamente no turbulento mar da dessignificação.

Escravos da virtualidade, acorrentados nas redes, não somos mais capazes de desligar o celular e de nos desligar dele. É ele que nos permite olhar o mundo pela janelinha eletrônica dessa prisão em que nos trancamos, cuja chave jogamos nas águas que cercam a ilha na qual nos isolamos, desprovidos de alteridade e sentido.

.................

Publicado por O globo el 10-8-2015.

http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/entre-os-mundos-real-virtual-17134882

sábado, 27 de junio de 2015

Cantiga

Helena Kolody

A vida é linda,
mesmo doendo
nos desencontros
e despedidas,
mesmo sangrando
em malogrados,
áridos hortos,
searas maduras
de sofrimento.
Chegar ao porto
da vida finda
cantando sempre,
sonhando ainda.

.............................
De Viagem no espelho, 1988.

domingo, 19 de abril de 2015

Três metades

Paulo Leminski

Meio dia
um dia e meio,
meio dia, meio noite,
metade deste poema
não sai na fotografia,
metade, metade foi-se.

Mai eis que a terça metade
aquela que é menos dose
de matemática verdade
do que soco, tiro ou coice,
vai e vem como coisa
de ou, de nem ou de quase.

Como se a gente tivesse
metades que não combinam,
três partes, destempestades,
três vezes ou vezes três,
como se quase, existindo,
só nos faltasse o talvez.

.................
Del poemario Distraídos venceremos, 1987.

jueves, 20 de noviembre de 2014

Dor elegante

Paulo Leminski

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
chegasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa, um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios, édens, analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo o que me sobra
sofrer vai ser a minha última obra

..................
Poema inédito que fue musicalizado y grabado por Itamar Assumpção en su disco PretoBras, 1999.

domingo, 16 de marzo de 2014

Madrigal melancólico

Manuel Bandeira

Lo que yo adoro en ti
No es tu belleza.
La belleza existe dentro de nosotros.
La belleza es un concepto.
Y la belleza es triste.
No es triste en sí,
Sino por lo que hay en ella de fragilidad e incertidumbre.

Lo que yo adoro en ti
No es tu inteligencia.
No es tu espíritu sutil,
Tan ágil, tan luminoso.
—Ave suelta en el suelo matinal de la montaña.
Ni es tu ciencia
Del corazón de los hombres y de las cosas.

Lo que yo adoro en ti
No es tu gracia musical
Sucesiva y renovada a cada momento,
Gracia aérea como tu propio pensamiento,
Gracia que perturba y satisface.

Lo que yo adoro en ti
No es la madre que ya perdí,
No es la hermana que ya perdí
Ni mi padre.

Lo que yo adoro en tu naturaleza
No es el profundo instinto maternal
En tu flanco abierto como una herida
Ni tu pureza. Ni tu impureza.
Lo que yo adoro en ti —lastímame y consuélame—
Lo que yo adoro en ti es la vida.

....................
De El ritmo disoluto, 1924.

viernes, 16 de agosto de 2013

Terra

Caetano Veloso

Quando eu me encontrava preso
na cela de uma cadeia
foi que eu vi pela primeira vez
as tais fotografias
em que apareces inteira, 
porém lá não estavas nua,
e sim coberta de nuvens... Terra, terra.

Por mais distante o errante navegante
quem jamais te esqueceria.

Ninguém supõe a morena 
dentro da estrela azulada,
na vertigem do cinema
mando um abraço pra ti,
pequenina como se eu fosse 
o saudoso poeta
e fosses a Paraíba... Terra, terra.

Por mais distante o errante navegante
quem jamais te esqueceria.

Eu estou apaixonado
por uma menina terra, 
signo de elemento terra,
do mar se diz terra à vista,
terra para o pé firmeza, 
terra para a mão carícia,
outros astros lhe são guia... Terra, terra.

Por mais distante o errante navegante
quem jamais te esqueceria.

Eu sou um leão de fogo,
sem ti me consomeria
a mim mesmo eternamente 
e de nada valeria
acontecer de eu ser gente 
e gente é outra alegria
diferente das estrelas... Terra, terra.

Por mais distante o errante navegante
quem jamais te esqueceria.

De onde nem tempo nem espaço
que a força mande coragem
pra gente te dar carinho
durante toda a viagem
que realizas no nada
através do qual carregas
o nome da tua carne... Terra, terra.

Por mais distante o errante navegante
quem jamais te esqueceria.

Nas sacadas dos sobrados
das velhas em Salvador
há lembranças de donzelas
do tempo do imperador
tudo, tudo na Bahia
faz a gente querer mais,
a Bahia tem um jeito... Terra, terra.

Por mais distante o errante navegante
quem jamais te esqueceria.


................
Del disco Muito, 1978.

martes, 30 de julio de 2013

Que no le pase la vida vida inútilmente

Marina Colasanti

Hace 30 años que permanecía en la ventana. En la ventana comía, en la ventana bebía, en la ventana vivía.

En la ventana, encajados los pechos en una moldura de brazos y carnes, dormitaba brevemente, rápido caer de la cabeza que luego volvía a levantarse.

Nada había para ver en aquella calle. Nada pasaba.

Pero ella quería estar segura de que, cuando al fin sucediera, sería la primera en verlo: un hecho vivo pescado con el arpón de su vigilia.

.....................
De Contos de amor rasgado, 1986. Traducción libre. He blogueado varios cuentos de este libro, uno de mis favoritos en todo sentido. Espero que la autora no me bloquee... ¡o me demande!

miércoles, 12 de junio de 2013

Trem das onze

Composición: Adoniran Barbosa
Interpretación: Gal Costa

Não posso ficar
nem mais um minuto com você,
sinto muito amor
mas não pode ser,
moro em Jaçanã,
se eu perder esse trem
que sai agora às onze horas
só amanhã de manhã.

E além disso mulher
tem outra coisa,
minha mãe não dorme
enquanto eu não chegar,
sou filho único,
tenho minha casa pra olhar...

Cas cas cas cas cas cas
Quaiscalingudum
Quaiscalingudum
Quaiscalingudum



..............................
Magnífica interpretación (final de los 60, supongo) del samba más famoso de Brasil, en la entonces joven y todavía más espectacular voz de Gal.

martes, 11 de junio de 2013

El amor de su vida

Marina Colasanti

Amaba la muerte. Pero no era correspondido.
Tomó veneno. Se lanzó desde altos puentes. Aspiró gas. Ella siempre lo rechazaba, negándole el anhelado abrazo.
Cuando finalmente desistió de aquel amor y se entregó a la vida, la muerte, celosa, le hizo estallar el corazón.

..............................................
De Contos de amor rasgados, 1986. Traducción libre.

domingo, 26 de mayo de 2013

Magrelinha

Luiz Melodia 

O pôr do sol 
vai renovar, brilhar de novo seu sorriso
e libertar 
da areia preta e do arco-íris cor de sangue,
cor de sangue, 
cor de sangue,
cor de sangue . 

O beijo meu 
vem com melado decorado cor de rosa,
o sonho seu 
vem dos lugares mais distantes,
terras dos gigantes, super homem, 
super mosca, super carioca
super eu, super eu ... 

E deixa tudo em forma, 
é melhor, nem sei,
e não tem mais perigo, 
digo já nem sei,
ela está comigo o som e o sol,
nem sei...

O sol não advinha, 
baby, é magrelinha, 
o sol não adivinha, 
baby, é magrelinha.

No coração do Brasil, 
no coração do Brasil,
baby é magrelinha.

No coração, no coração, no coração do Brasil 
baby, é magrelinha.

No coração, no coração, no coração do Brasil...



...............................
Del disco Relíquias, 1995.

sábado, 27 de abril de 2013

Cidadão - cidadã

Jorge Mautner
Acompaña: Caetano Veloso

assim como é natural 
o vôo da borboleta 
assim como falta uma mão no maneta 
assim como não acho nada de anormal 
no fato de você ser trocaletra
acho que se deve ser diferente 
e não como toda a gente 
mas igualmente ser gente 
como toda essa gente 
deste país continente
e de todo o planeta 

assim como é lindo o pirata 
apesar de ser perneta 
com uma mão segurando a mão do grumete 
e com a outra a luneta 
dizendo é natural que os anjos do juízo final 
toquem trombeta 

e vieram pelos espaços os anjos do Senhor 
e desceram como pára-quedas azuis e transparentes 
no meio do campo de batalha 
que era televisionado vinte e cinco horas por dia 
via satélite, a cores 
e no meio dos horrores 
tocaram suas trombetas 
e derrubaram a muralha de Jericó 
quem, quem, quem a não ser o som 
poderia derrubar a muralha dos ódios 
dos preconceitos, das intolerâncias 
das tiranias, das ditaduras 
dos totalitarismos 
das patrulhas ideológicas 
e do nazismo universal?

acho que todo cidadão 
ou cidadã 
deve ter possibilidades 
de felicidades
do tamanho de um super Maracanã 
e deve e pode ser 
azul, negro ou cinza 
sorridente ou ranzinza 
verde-amarelo 
e da cor vermelha 
deve-se somente ser 
e não temer viver 
com o que der e vier 
na nossa telha 

vivamos em paz 
porque tanto faz 
gostar de coelho 
ou de coelha...

Cidadão - cidadã

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Del LP Bomba de estrelas, lanzado en 1981. Una vez más, no me dejaron publicar esta música en mi blog. Afortunadamente no me dijeron algo así como "esta música no está disponible para usted", sino que me obligaron a linkearla a You Tube. Vaya usted a saber...

domingo, 21 de abril de 2013

Tiro ao álvaro

Composición: Adoniram Barbosa
Interpretación: Adoniram Barbosa y Elis Regina

de tanto levá 
frechada do teu olhar
meu peito até 
parece sabe o quê?
táubua 
de tiro ao álvaro
não tem mais onde furá

teu olhar mata mais do que bala de carabina
que veneno estricnina
que peixeira de baiano
teu olhar mata mais que atropelamento de automóver
mata mais 
que bala de revórver


..............................
Este samba, uno de los más representativos de la música popular brasileña, fue compuesto por Barbosa en 1960 y grabado junto a Elis en el disco homónimo de 1980, un año antes de la muerte de ambos.

domingo, 7 de abril de 2013

Vá cuidar de sua vida

Itamar Assumpção

vá cuidar de sua vida
diz o dito popular
quem cuida da vida alheia
da sua não pode cuidar

(BIS)

O negro cantando samba
era coisa feia
esse é negro é vagabundo
joga ele na cadeia
hoje o branco tá no samba
quero ver como é que fica
todo mundo bate palma
quando ele toca cuíca

Negro jogando pernada
negro jogando rasteira
todo mundo condenava
uma simples brincadeira
e o negro deixou de tudo
acreditou na besteira
hoje só tem gente branca
na escola de capoeira

Negro falava de umbanda
branco ficava cabreiro
fica longe desse negro
esse negro é feiticeiro
hoje o preto vai à missa
e chega sempre primeiro
o branco vai pra macumba
e já é babá de terreiro




....................................
Del disco Pretobrás, 1998.