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viernes, 11 de febrero de 2022

Mulher da vida

Por Planeta en Crisis 

sou aquilo sabido e conhecido
da mais velha vocação
da vida sou
bonita e muito feia se mexer
índia, branca, negra e além
de cá mais que de lá
saudosa sempre de ninguém
sozinha no meio das pessoas
ranzinza, insociável,
amiga péssima, bem sei
feliz, às vezes triste
alucinada
fã de tudo o que não posso
cratera funda
insensível
e no entanto tão vivente
sou um bicho-coração
me perdoa por não ser
talvez melhor
ou um pouco menos


Caracas, 2022.

miércoles, 18 de septiembre de 2019

Amando

Paulo Leminski

Amando,
aumenta
até duas mil vezes
o tamanho.

De Quarenta clics em curitiba, 1976.

sábado, 28 de mayo de 2016

Relâmpagos

Ana Martins Marques

Certas máquinas são feitas para o esquecimento.
Há dias em que sinto trabalharem em mim
as confusões do relâmpago.
Então coleciono letras, órbitas, radares.
A linha que me liga aos quadris dessa noite imensa
é a mesma que sai da garganta aberta do dia.
Vejo as estrelas desenharem-se em constelações,
sei muitas coisas rápidas, precisas,
por alguns instantes.

................

De A vida submarina, 2009.

domingo, 3 de enero de 2016

Prova

Olha, 
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.

............ 
 De Millôr Definitivo - A bíblia do caos, 1994.

Calendário

Millôr Fernandes

E tudo vai passar,
Como passaram César,
Brutus, Tito, Baltazar,
Todo grande homem,
Falso ou verdadeiro.
Mas isso só lá pro fim do ano.
Inda estamos em janeiro.

 ............ 
De Millôr Definitivo - A bíblia do caos, 1994.

lunes, 10 de agosto de 2015

Entre os mundos real e virtual

Frei Betto

Nosso mundo pós-moderno é fragmentado. Uma de suas expressões mais evidentes é o videoclipe. Enxurrada de flashes, vibrações acústicas, sons distorcidos. Rompe-se a linearidade, enquanto a simultaneidade embaralha passado, presente e futuro. Tudo é simuladamente aqui e agora.

O Iluminismo, ancorado na literatura, cede lugar à digitalização frenética. Mundo que carece de sentido. Forma que dispensa conteúdo. A performance do artista ultrapassa a arte que ele produz. Seu nome vale mais que seu desempenho. A valoração dá lugar à exaltação.

Einstein, que desnudou o mistério do Universo com suas equações, foi sucedido por Steve Jobs, que nos ofereceu maravilhas tecnológicas embaladas de refinamento estético, movidas a velocidade que desafia o cérebro humano.

Agora a alienação já não resulta de ideologias que distorcem a realidade para nos incutir a mentira como verdade. Basta que sejamos deslocados do real para o virtual. Somos seres que trafegam simultaneamente em dois mundos: o da realidade de nossas necessidades e o da virtualidade de nossos sonhos e desejos.

Trancados em nossos egos, avessos à sociabilidade, navegamos nas redes sociais que dispensam texto e contexto. Bastam vocábulos desconexos, abreviações, o balbuciar de sinais gráficos que nos conectam com a plateia global que, acomodada no teatro do mundo, desconectada do real, mantém os olhos fixos no palco vazio.

As grandes narrativas são deletadas por esse tempo desprovido de memória e utopia. O passado passou, o futuro é uma quimera... Só resta o presente que se sucede prisioneiro da circularidade infinita.

Ninguém ingressa em uma casa sem antes avisar ou ser convidado, marcar hora, identificar-se com o porteiro e justificar a espera e atenção.

No entanto, centenas de pessoas invadem, pelas redes sociais, o nosso espaço privado, ferem a nossa sensibilidade com ofensas e desaforos, desafiam os nossos valores, jogam-nos na vala comum das emoções cifradas. Tudo se assemelha a um jogo de pingue-pongue com rede, porém sem mesa.

Viciados em digitalização, aprisionados pela tecnologia que assegura retorno imediato ao capital, perdemos horas e horas da vida atirados ao ringue onomatopaico. Não navegamos, naufragamos. Deixamo-nos aprisionar pelas redes que nos favorecem a evasão de privacidade.

Ora, ninguém precisa mais se preocupar em invadir a nossa privacidade. Nós mesmos nos expomos em rede global, arrancamos máscaras e roupas, escancaramos nossa indigência cultural e nossa miséria espiritual.

Como artefato tecnológico, somos também apenas uma forma. Um objeto jogado aleatoriamente no turbulento mar da dessignificação.

Escravos da virtualidade, acorrentados nas redes, não somos mais capazes de desligar o celular e de nos desligar dele. É ele que nos permite olhar o mundo pela janelinha eletrônica dessa prisão em que nos trancamos, cuja chave jogamos nas águas que cercam a ilha na qual nos isolamos, desprovidos de alteridade e sentido.

.................

Publicado por O globo el 10-8-2015.

http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/entre-os-mundos-real-virtual-17134882

sábado, 27 de junio de 2015

Cantiga

Helena Kolody

A vida é linda,
mesmo doendo
nos desencontros
e despedidas,
mesmo sangrando
em malogrados,
áridos hortos,
searas maduras
de sofrimento.
Chegar ao porto
da vida finda
cantando sempre,
sonhando ainda.

.............................
De Viagem no espelho, 1988.

jueves, 20 de noviembre de 2014

Dor elegante

Paulo Leminski

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
chegasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa, um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios, édens, analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo o que me sobra
sofrer vai ser a minha última obra

..................
Poema inédito que fue musicalizado y grabado por Itamar Assumpção en su disco PretoBras, 1999.

sábado, 16 de junio de 2012

Apocalipse zumbi: profecia autorrealizável?

Antônio Luiz M.C. Costa

Três crimes muito estranhos impressionaram o mundo na última semana de maio. No primeiro deles, dia 26, sábado, um negro nu, Rudy Eugene, de 31 anos, foi flagrado comendo o rosto de um mendigo branco, Ronald Poppo, de 65 anos em uma passarela de pedestres onde drogados e sem-teto se abrigam sobre a MacArthur Causeway, uma avenida movimentada de Miami.

O ataque, filmado por uma câmera de segurança no prédio vizinho do jornal The Miami Herald, durou 18 minutos. Eugene espancou Poppo até deixá-lo inconsciente, o despiu, arrancou-lhe um olho e começou a devorá-lo. Eugene, um lavador de carros com condenações por pequenos crimes, tinha abandonado seu carro na avenida a cinco quilômetros dali e caminhado por duas horas, jogando fora a carteira de motorista, a roupa e os sapatos pelo caminho. Viera da casa da namorada em Fort Lauderdale (a cerca de50 quilômetros dali) para assistir a um show de hip-hop em Miami Beach.

Alertado por um ciclista, um policial interveio e ordenou-lhe que se afastasse. “O homem que atacava se levantou com pedaços de carne na boca. Ele rosnava”, contou o policial. O agressor o ignorou e continuou a arrancar pedaços de carne da vítima com a boca O policial atirou, mas ele continuou mastigando. O policial atirou mais quatro vezes até matá-lo. Além do olho arrancado, a vítima teve três quartos do rosto devorados e está internadaem estado grave. Apolícia acredita que o agressor estava sob o efeito de alguma das drogas sintéticas conhecidas genericamente como “salt baths” (sais de banho), mas até agora nenhum exame toxicológico foi publicado.

Em 31 de maio, Alexander Kinyua, imigrante queniano de 21 anos que vivia nos EUA desde criança, estudante de engenharia elétrica na Universidade de Morgan, Maryland, confessou à polícia que comeu o coração e parte do cérebro de seu colega de quarto Kujoe Bonsafo Agyei-Kodie, imigrante ganês em situação irregular, de 37 anos e aluno de outra faculdade, desaparecido desde o dia 25. O irmão de Kinyua encontrara as mãos e parte da cabeça da vítima no porão de casa e avisara a polícia, que foi imediatamente à procura do jovem, brevemente detido uma semana antes por agredir um colega com um taco de beisebol e deixá-lo cego, sem motivo aparente.

No dia do assassinato, Kinyua postara frases estranhas no Facebook: “Ouçam-me, estudantes de faculdades negras, vocês são fortes o bastante para suportar sacrifícios humanos rituais em massa em todo o país e funcionarem como seres humanos? Tem sido trágico demais com o duplo tiroteio na Virginia Tech [caso de 2007, quando um estudante, imigrante sul-coreano, matou a tiros 32 outras pessoas e a si mesmo nessa faculdade] e outros assassinatos universitários. Agora, uma reviravolta: limpeza étnica é a política, estratégia e tática que afetará vocês, direta ou indiretamente, nos próximos meses. Esta é a base brutal, um método maligno e terrificante destes cultos mortais”.

Um terceiro caso, mais complicado, mas que envolve elementos semelhantes, foi o do canadense branco Luka Magnotta, de 29 anos, que postou na internet um filme dele mesmo matando, decapitando, esquartejando e violando o corpo de Jun Lin, estudante chinês homossexual de 33 anos, no que provavelmente seria um encontro sexual de ocasião. Foi em Montreal, no dia 24 ou 25 de maio. Comeu alguns pedaços da vítima e enviou outros às sedes de partidos canadenses. Fugiu para a Europa no dia 26, mas foi reconhecido e preso em Berlim, em 4 de junho, ao consultar longamente em um cibercafé as notícias sobre ele mesmo. Magnotta, que vivia de bicos, fez pequenos papéis heterossexuais e homossexuais em filmes pornôs (obscuros, apesar de ele se apresentar como “astro” do gênero), foi modelo e prostituto e uma vez foi preso ao se travestir como mulher (coisa fácil, dada sua aparência andrógina) para fazer compras com um cartão de crédito roubado e dizia ser apenas “gay por dinheiro”. Parece responder também por vídeos de tortura e morte de gatinhos divulgados na internet e por mensagens e um manifesto com seu nome em um foro neonazista, que expressavam ódio ao multiculturalismo em geral e a chineses e judeus em particular. Uma jornalista transexual que foi sua amante o descreve como obcecado por fama e inclinado a golpear a si mesmo: sugere um homem incapaz de suportar a si mesmo como homossexual e “fracassado”.

Os três casos envolvem provavelmente psicoses, associadas ou não ao uso de drogas, mas isso não esgota a questão. Há sentimentos de humilhação e frustração associados à condição de negro, de imigrante, de desempregado, de homossexual e uma reação na forma de violência grotesca e mesmo exibicionista, mesmo que seja contra pessoas em situação semelhante ou pior.

Além disso, ao menos nos dois primeiros casos é aparente a imitação, consciente ou inconsciente, do modelo ficcional do “zumbi”, cada vez mais popular no cinema, em games de computador e na literatura de terror.

Não se trata, entenda-se bem, do nzumbi da tradição quimbunda, um fantasma ou espírito imortal que vagueia a noite, sentido no qual foi apelidado o herói Zumbi de Palmares. Também não é o zumbi das crenças haitianas, cadáver reanimado por magia para servir de escravo a um feiticeiro vudu. A lenda foi popularizada pelo romance The Magic Island (A Ilha Mágica, de 1929) de William Seabrook e pelo filme White Zombie (Zumbi Branco, de 1932, com Bela Lugosi) de Victor Halperin.

O modelo do “zumbi” de que estamos falando aqui surgiu com Night of the Living Dead (A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968) de George Romero. O filme não usava a expressão “zumbi”, que lhe foi associada pelo público a partir de alguma semelhança na aparência com os “escravos mortos-vivos”, mas nenhuma no conceito: nesse filme, uma epidemia causada por “contaminação radioativa” trazida de Vênus por uma sonda interplanetária transforma pessoas normais em cadáveres animados canibais e assassinos, que tentam devorar amigos e parentes. A predileção por cérebros foi introduzida pela sequência trash de 1985, Return of the Living Dead (A Volta dos Mortos Vivos).

Romero citava como inspiração os quadrinhos do gibi de terror Tales from the Crypt, publicados de 1950 a 1955, mas as figuras que nele apareciam eram zumbis tradicionais mesclados com os ghouls ou carniçais do folclore árabe (gênios malignos canibais que assumem a forma de sua última vítima) para se tornarem semidecompostos cadáveres ambulantes que ameaçavam moças e aventureiros ingênuos, nunca uma epidemia. O precursor mais próximo é o filme de 1936 Things to Come (Daqui a Cem Anos), dirigido por William Cameron Menzies e com roteiro do escritor de ficção científica H. G. Wells. Nesse filme, os mortos-vivos são produto de uma guerra biológica imaginada 30 anos no futuro (ou seja, em 1966). A tentativa de curá-los é inútil e a única maneira de combater a epidemia é atirar nos contaminados.

Também se pode citar I Am Legend (no Brasil, Última Esperança sobre a Terra ou, nas edições recentes, Eu Sou a Lenda), romance de Richard Matheson de 1954, adaptado para o cinema três vezes, no qual a epidemia toma o mundo e o protagonista é o último sobrevivente. Mas nesse caso, os contaminados são “vampiros” (com medo de alho) racionais e inteligentes que reconstroem a sociedade e condenam o herói à morte como uma ameaça à nova ordem.

Em muitos filmes e textos desse subgênero, a epidemia torna-se mundial e o tema é a luta desesperada dos remanescentes da humanidade para sobreviver e não serem contaminados: é o “apocalipse zumbi”, que nada mais a ver com os zumbis africanos e haitianos. É um mito moderno, inventado pela ficção científica do século XX nas vésperas da II Guerra Mundial e que tomou sua forma atual durante a Guerra do Vietnã.

Os críticos geralmente interpretam o filme de Romero e suas sequências e imitações como uma alegoria da decadência da sociedade e seus valores, que descreve sobreviventes sitiados a desconfiarem um dos outros e brigarem constantemente entre si sobre como se defenderem, enquanto “zumbis” destroem casas bonitas, shoppings e outros símbolos de prosperidade.

A obsessão com esses “zumbis” se tornou ainda maior em fins dos anos 1990, com a popularização de jogos de computador como Resident Evil, Silent Hill, Dead Rising e similares e a retomada do tema na ficção literária de horror, notadamente The Zombie Survival Guide (O Guia de Sobrevivência a Zumbis, de 2003) de Max Brooks e Cell (Celular, de 2006) de Stephen King. E explodiu em 2009 – logo após a crise financeira de Wall Street – com a epidemia dos chamados mashups, obras clássicas deformadas pelo acréscimo de zumbis à trama, moda inaugurada pelo infame Pride and Prejudice and Zombies (Orgulho e Preconceito e Zumbis) de Seth Grahame-Smith e seguida por atentados similares a obras como A Guerra dos Mundos, Huckleberry Finn, O Mágico de Oz, Drácula e Alice no País das Maravilhas.

Ainda mais estranho, em 2011 o CDC (Centers for Disease Control and Prevention – Centro de Controle e Prevenção de Doenças), do governo federal dos EUA, publicou um blog chamado Preparedness 101: Zombie Apocalypse (http://blogs.cdc.gov/publichealthmatters/2011/05/preparedness-101-zombie-apocalypse/), que dá orientações fictícias à população sobre como se defender de um “apocalipse zumbi”, preparando kits de emergência e rotas de fuga. E em maio de 2012, poucos dias antes dos crimes acima mencionados, o governo da província canadense da Colúmbia Britânica divulgou um “manual de sobrevivência para o apocalipse zumbi”, acompanhado de vídeos ilustrativos (http://www.emergencyinfobc.gov.bc.ca/zombie-preparedness-week-are-you-ready.html). Um dos trechos avisa: “cuidado, tudo pode começar com um surto de gripe particularmente agressivo, então é bom ficar atento às notícias da TV”.

Os governos dos EUA e da província canadense apresentaram essas estranhas instruções uma forma de chamar a atenção da população e interessá-la em prevenção de desastres em geral, visto que as precauções sugeridas supostamente seriam úteis ao se lidar com desastres naturais como furacões, epidemias, terremotos e enchentes. Apesar da insistência dos internautas, não deram orientações sobre armas para combater os zumbis.

Agora parecem, porém, reconhecer que foram um pouco longe demais. Em 31 de maio, depois dos casos de canibalismo e ante a multiplicação de manifestações de internautas preocupados com a possibilidade de que o apocalipse estivesse se tornando realidade, o governo dos EUA teve de negar formalmente que isso fosse possível: “o CDC não conhece nenhum vírus ou condição capaz de reanimar os mortos (ou causar sintomas semelhantes a zumbis)”, escreveu o porta-voz da agência David Daigle em um e-mail para o site de blogs e notícias The Huffington Post.

Mas por que essa ameaça tão improvável fascina e motiva pessoas hoje? Nos anos 1950, provavelmente uma ideia como essa seria denunciada como uma brincadeira de mau gosto e de um ridículo atroz. Mesmo se o preparo para um apocalipse nuclear – hipótese hoje menos preocupante, mas que com certeza ainda é mais plausível do que uma epidemia de zumbis – era levado muito a sério, com treinamento nas escolas e empresas.

O que é isso, se não um sintoma de ansiedade para com o que parece ser a crescente fragilidade da ordem e da civilização ocidental, ameaçada por guerras, degradação ambiental, desemprego e concentração de renda? Não são esses zumbis expressão do medo da revolta das massas marginalizadas, minorias, estrangeiros e imigrantes ou simplesmente fracassados na busca ilusória da felicidade pelo consumo e da ascensão social?

Enfim, desse “precariado” visto como miserável, anárquico e irracional em contraste com fantasmas mais antigos e articulados, como o da revolta do proletariado, simbolizado pela “criatura” que se volta contra o “criador” (o monstro anônimo de Frankenstein, a robô Maria de Metropolis, os replicantes de Blade Runner…) e o da infiltração e doutrinação comunistas, representadas por incontáveis histórias de invasores alienígenas que tomam a forma de humanos ou assumem o controle de suas mentes, como em Invasion of the Body Snatchers (Vampiros de Almas, 1956).

Quando até governos e instituições oficiais cedem à tentação de misturar realidade e fantasia dessa maneira, será de se admirar que pobres psicopatas façam o mesmo, com a diferença de se colocarem no papel de “zumbis” que é implicitamente o seu? Ao mesmo tempo, uma sitiada classe média tradicional cultiva uma cultura de medo e se fascina por armas e sobrevivencialismo como se fosse possível enfrentar pela força bruta as muitas ameaças a seu modo de vida que não quer compreender, como o terrorismo e as crises financeiras.

Não se trata de afirmar, é claro, que a ficção determina comportamentos. Mas pode confirmar e alimentar obsessões dentro de um clima político que se nutre do medo e pode mais ainda impressionar mentes fragilizadas e dar uma forma mais definida a uma explosão de loucura. Sabe-se como certas manifestações de perturbações mentais são associadas a determinadas épocas e civilizações a ponto de serem consideradas “síndromes culturais’: o amok dos malaios (loucura que toma a forma de um ataque aleatório a facadas a pessoas na rua), o koro do sudeste asiático (ideia obsessiva de que o pênis está encolhendo e vai desaparecer), a “possessão” ou “obsessão” por espíritos ou demônios, comum entre brasileiros e outros latinos, os serial killers e spree killers característicos de certos países desenvolvidos do Ocidente.

Não seriam os casos patológicos citados no início deste texto um caso extremo em que esta civilização manifesta de forma demasiado literal os terrores que expressa em sua ficção? E não seria aconselhável, para combater sua multiplicação, ampliar o debate consciente sobre os problemas sociais e evitar alimentar a confusão do real com o imaginário?

…………….
Publicado por Carta Capital el 5-6-2012.

jueves, 15 de marzo de 2012

Deus

Paulo Leminski

eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus

………………………………..
Tomado de Distraídos venceremos, 1987. El título es intervención mía.

domingo, 22 de enero de 2012

Caso pluvioso

Carlos Drummond de Andrade
Voz: Paulo Autran

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que Maria é que chovia.
A chuva era Maria. E cada pingo
de Maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura...
Maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa...Nossa!

Não me chovas, Maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!

Eu lhe dizia em vão - pois que Maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,

que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira Maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças d'água gelada ia tecendo.
Choveu tanto Maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa

e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.
E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de Maria mais chuvavam,

de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,
e era o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvisco.

Os seres mais estranhos se juntando
na mesma aquosa pasta iam clamando
contra essa chuva estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual).

Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d'água mais deliram,
e Maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.

Os navios soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,
e Maria chovendo. Eis que a essa altura,
delida e fluida a humana enfibratura,

e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,
e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, Maria! - e ela parou.

………………………….
Del poemario Viola de bolso, 1955. 

domingo, 10 de abril de 2011

Eu passarinho!

Mário Quintana

Todos estes que aí estão
atravancando o meu caminho,
eles passarão…
eu passarinho!

........................................
Publicado en Prosa e Verso, 1978.

domingo, 3 de abril de 2011

A financeirização da fome

Luiz Gonzaga Belluzzo

Depois do crash de 1929, o Glass-Steagal Act proibiu o envolvimento direto dos bancos comerciais em operações nos mercados de capitais, mercados imobiliários e na especulação nos mercados de alta volatilidade, como é o caso das commodities. Nos últimos 30 anos, a desregulamentação e a liberalização da finança quebraram as barreiras impostas pelas reformas dos anos 30 do século passado, criaram os supermercados financeiros e promoveram a securitização dos créditos. Na verdade, as inovações financeiras alteraram as relações entre bancos de depósito, bancos de investimento e outras instituições financeiras que se aproximaram das funções cumpridas pelos bancos comerciais. Ao mesmo tempo, estes passaram a executar funções próprias dos bancos de investimento, ao criar os SIVS (Special Investment Vehicles) para carregar os papéis lastreados nas operações de crédito, não só os hipotecários.

Entre outras consequências, as transformações impulsionaram a securitização dos créditos, estimularam a “alavancagem” (palavra horrível) abusiva - ou seja, a utilização do crédito barato para sustentar a posse de ativos em desproporção perigosa com o capital próprio. Na maioria dos casos, antes da crise, a relação era de 30 para 1. Não espanta que tais procedimentos da alta finança tenham promovido o inchaço das operações com derivativos nos mercados futuros de juros, câmbio, matérias-primas e alimentos. No vendaval das reformas neo-liberais, os governos abandonaram as políticas de estabilização de preços baseadas na formação e operação de estoques reguladores (ainda que os países desenvolvidos tivessem mantidos os subsídios a seus agricultores) e submeteram os mercados de commodities, instáveis por sua própria natureza, ao capricho e à sanha especulativa dos mercados futuros.

O Federal Reserve, o Tesouro americano, deixou correr farra da alavancagem e o festival da multiplicação de securities lastreadas em empréstimos hipotecários. Essa música tambem embalava a especulação altista com estoques de matérias-primas e alimentos, cuja oferta responde lentamente a um aumento de preços. Às vésperas da crise de 2007-2008, os principais índices de preços das commodities mostravam uma aceleração impressionante.

Nos últimos anos, com o auxílio inestimável dos trabalhadores chineses e do Banco Central da China, a rápida queda de preços do produtos manufaturados ajudou os bancos centrais dos países desenvolvidos conseguiram manter a inflação sob controle. Mas o “sucesso” das políticas de metas de inflação não impediu, senão incitou a recorrência de ciclos exuberantes de valorização dos ativos. A concorrência entre os possuidores de riqueza, associada ao crédito elástico e à crença nas intervenções de última instância dos bancos centrais, estimularam o surgimento de episódios especulativos.

O colapso do Lehman Brothers em setembro de 2008, cozido e fervido nos temperos e pruridos ideológicos de Paulson e Bernanke, interrompeu o ciclo de inflação de ativos. Os preços das commodities, aí incluído o petróleo, despencaram. Nesse momento, a corrida dos investidores para a “qualidade” suscitou a valorização do dólar e provocou surtos de desvalorização nas moedas dos países produtores de commodities, sem qualquer efeito sobre a inflação nos emergentes. Isto porque o choque da desvalorização foi compensado pelo colapso dos preços dos produtos básicos.

A vacilada deflagrou as vendas de securities nos fundos mútuos e de hedge administrados por bancos de investimento que financiavam a posse desses ativos tomando recursos nos mercados monetários atacadistas (semelhantes aos fundos DI de curtro prazo no Brasil). As aplicações nesses mercados sustentavam posições alavancadas em ativos originados nos empréstimos hipotecários e outras operações de crédito securitizadas.

A clientela cuidou de retirar os depósitos das instituições menores para concentrar o rico dinheirinho nos títulos do governo americano, vistos com derradeiro refúgio da riqueza líquida das empresas e das famílias endinheiradas. Diante do encolhimento da confiança, os bancos tornaram mais rigorosos os critérios de concessão do crédito no mercado interbancário e, assim, fizeram periclitar instituições ilíquidas, mas solventes. Em situações como a aquela, passar da iliquidez à insolvência é um passo.

Mas, os bancos centrais e as autoridades do Tesouro - imprudentes e cúmplices da especulação - não poderiam deixar a vaca ir para o brejo. Foram compelidos a intervir na cadeia de interrelações entre as instituições para domar a mula sem cabeça dos mercados infectados pela desconfiança. Deixar o bicho à solta seria grave irresponsabilidade. Nos países centrais, a crise de liquidez transformou-se numa crise de crédito, depois transfigurada num festival de insolvências, contida pela intervenção generosa das autoridades

As generosas injeções de liquidez e os programas de compra de ativos podres não fizeram pouco. Ademais de construir um piso para a deflação de ativos, as intervenções suscitaram um movimento global no interior da circulação financeira. Os movimentos observados no interior da circulação financeira, em si mesmos, não prometem à economia global uma saída rápida da trajetória medíocre, mas indicam que os mercados de ativos começam a se restabelecer da derrocada de 2008.

Trata-se, na verdade de um rearranjo dentro do estoque de riqueza que responde aos preços esperados dos ativos, por parte dos investidores que lograram vencer o colapso da liquidez. Salvos das perdas e capturados os benefícios oferecidos pelas autoridades, os investidores eles se mobilizam para a realocação de carteiras. Esse movimento favoreceu a forte recuperação as bolsas, a valorização das moedas dos emergentes e o “aquecimento” dos mercados de commodities. O dólar devolve a valorização observada nos primeiros meses de crise e com isso ajuda a explosão dos preços das matérias-primas e alimentos.

Semanas atrás, escreví no jornal Valor que, em sua coluna no New York Times, Paul Krugman jogou a responsabilidade do aumento de preços às condições climáticas. Sem dúvida, as secas e enchentes em áreas de excelência na produção de alimentos desempenham um papel importante na contração da oferta de muitos produtos, dentre ele o trigo, o nosso pão de cada dia. Krugman, no entanto, rejeitou as hipóteses que, além dos fatores climáticos e do aumento da demanda de alimentos e de outras matérias primas nos emergentes, apontavam a expansão da liquidez global e suas taxas de juro ínfimas que botam fogo na especulação com as mercadorias transfiguradas em ativos. Krugman, assustado com os falcões da austeridade fiscal e monetária que rondam sinistramente a convalescente economia americana, chuta para escanteio a hipótese das “distorções” causadas pelas políticas anticíclicas e pelos derivativos na volatilidade e na elevação dos preços.

Os adversários da crítica ao papel dos derivativos afirmam que os operadores financeiros não intervêm diretamente nos “ativos subjacentes” negociados nos mercados a termo, ou seja, nos mercados físicos de matéria primas. Sustentam que o volume de transações nos mercados a termo é muito superior àquele transacionado nos mercados à vista, com fracas interações entre eles.

O economista Michel Aglietta argumenta que essa visão parte de uma interpretação errônea da transmissão do movimento de preços entre os mercados de derivativos de matérias-primas e os mercados “físicos”. O ponto de vista dos defensores da escassez tem alguns elos fracos: 1) a estrutura de mercado dos produtos agrícolas é fortemente concentrada, governada por monopólios e monopsônios com enorme poder de administrar preços e quantidades. Portanto, se um mercado está em “desequilíbrio” por conta de um choque de oferta, o movimento inicial é amplificado pela formação de posições à termo “compradas” pelos caçadores de tendências. A transmissão para os mercados á vista é efetuada através das grandes empresas que tratam de acumular estoques tão logo antecipam a alta de preços deflagrada nos mercados a termo.

O G 20 se reúne em Paris assombrado pelo espectro da estagflação, fenômeno que os economistas e policy makers imaginavam ter sepultado no início dos anos 80 do século passado, sob o peso das taxas de juros de Paul Volker. O presidente Sarkozy propõe um arranjo internacional, com formação de estoques reguladores administrados por produtores e consumidores para estabilizar os preços das commodities.

Seria conveniente lembrar que, na posteridade da 2ª Guerra Mundial Keynes sugeriu a constituição de um comitê internacional encarregado de estabilizar os preços das matérias primas e alimentos. Esse comitê, composto por países produtores e consumidores, teria o apoio da Clearing Union, o sistema público de financiamento dos desequilíbrios dos balanços de pagamentos, envolvendo responsabilidades dos países deficitários e superavitários. Nada mais atual.

………………
Publicado en Carta Maior el 11-3-2011.

sábado, 19 de marzo de 2011

Bermuda larga

Chacal

muitos lutam por uma causa justa
eu prefiro uma bermuda larga
só quero que não me encha o saco
luto pelas pedras fora do sapato

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Publicado originalmente en Comício de tudo, 1986.

sábado, 12 de marzo de 2011

Haikai

Issa Kobayashi
Traducción al portugués: Alice Ruiz

sombra do bambuzal
sozinha a mulher canta
a canção dos que plantam

yabú-kagé ya
tatta hitori no
taué-utá

In the shade of the thicket,
A woman by herself
singing the planting-song.
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vaga aqui
lume aqui
o vagalume

o botarú
yurarí yurarí to
tori kerí

Waveringly
A huge fire fly
Passes by.
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passarinho órfão
mesmo em vão
abre o bico

mata muda ni
kuchi aku torí no
mamakó kana

Opening it’s mouth
Uselessly still
The step-child of the bird.
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chuva de verão
espremida entre os bambus
minha aldeia

samidare no
take ni hasamaru
zaisho kana

My native village
Squeezed in among the bamboos,
In the summer rains.
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Para cada haikai he colocado las traducciones al portugués y al inglés, además del poema original en caracteres latinos. Reproduzco también el inicio del prólogo de Alice Ruiz para este poemario, publicado en 1987: “Issa Kobayashi vivió 64 años, de 1763 a 1827. Nació en Shinano, pequeña aldea de la isla de Honshu. Su vida entera estuvo marcada por el sufrimiento. Huérfano desde muy temprano, vio morir a su mujer y a sus cinco hijos. Al contrario de Bashó, que era samurai, Issa era de origen humilde. Siempre fue pobre, su casa fue consumida por un incendio y la parca herencia que le dejaron sus padres se la robaron unos parientes. Esta suma considerable de tragedias tal vez haya sido la causa matriz que transformó a Issa en el poeta del destino, de la fatalidad.”

martes, 4 de enero de 2011

Soneto 20

Luis de Camões

Correm turvas as águas deste rio
Que as do céu e as do monte as enturbaram;
Os campos florescidos se secaram;
Intratável se fez o vale, e frio.

Passou o Verão, passou o ardente Estio;
Umas cousas por outras se trocaram;
Os fementidos Fados já deixaram
Do mundo o regimento ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que me parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.

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Las Rimas de Camões fueron publicadas en 1595, quince años después de la muerte de este gran poeta portugués.

martes, 16 de noviembre de 2010

O mar em movimento

Paulo Leminski


aqui

nesta pedra

alguém sentou
olhando o mar

o mar
não parou
para ser olhado

foi mar
pra tudo quanto é lado

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Del poemario Caprichos e relaxos, 1983. Al igual que en el fragmento de Elizabeth Schön más abajo, el título es una intervención abusiva de mi parte.

lunes, 13 de septiembre de 2010

Voyeur

Chacal

Gosto da janela, de você e da TV
de você que é amarela, dá beijinho e é em 3D
da TV quando aparece a Regina, a Soninha ou a Maitê
da janela, d'olhar dela
 
só que você não tem moldura
é a completa loucura
você não tem fim, não tem meio nem começo

você chega assim como quem não quer nada
faz piada, arrepia e arrebata
esse seu
volúvel espectador

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Poesía para decir en la calle, predecesora de los 140 caracteres. Del libro Comício de tudo, 1987.

miércoles, 11 de agosto de 2010

Movido a água

Escuche el poema

Itamar Assumpção

Existe o carro movido a gasolina,
existe o carro movido a óleo diesel,
existe o carro movido a álcool,
existe o carro movido a eletricidade,
existe o carro movido a gás de cozinha.
Eu descobri o carro movido a água,
quase eu grito "eureka eurico".
Aí saquei que a água ia ficar uma nota
e os açudes iam tudo Ceará,
os rios não desaguariam mais no mar
nem o mar mais vira sertão
nem o sertão mais vira mar.
Banho nem de sol.
Chamei o anjo e devolvi a descoberta para o infinito,
aleguei ser um invento inviável
só realizável por obra e graça do Santo Espírito.
Agora eu tô bolando um carro movido a bagulhos,
dejetos, restos, detritos, fezes,
três vezes estrume.
Um carro de luxo movido a lixo.
Um carro para sempre movido a bosta de gente.


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Del disco Sampa Midnight, 1983. Hoy leí la noticia de que inventaron un automóvil que funciona con excremento humano.